(o texto foi retirado do site Confraria da Loteca, aqui e aqui)
Todo moleque de 10 ou 12 anos não “apenas aprecia o futebol”.
Ele é o próprio futebol.
Não raro, o primeiro presente é uma bola.
É incrível, já vi criança recusar chocolate.
Mas nunca vi um garoto não se entusiasmar com uma bola.
Futebol é prazer. Futebol é alegria.
E Deus não poderia ter criado melhor forma de integração.
Quase todos os dias, ao chegar em casa, volto à minha infância.
Na rua onde moro há inúmeros moleques.
De 7, 8 até 12, 14 anos.
Nunca falta uma bola. Jamais.
A algazarra é grande.
Quando tenho tempo pego uma cerveja.
Subo no muro e observo.
Ao observar, me vejo no meio deles, com 12 anos.
Gritando, correndo, chutando...
O jogo preferido é gol-caixote.
Duas pedras ou um par de chinelos fazem cada gol.
Mais ou menos um metro de distância.
3, 4 ou 5 para cada lado e começa a correria.
Me lembro bem, rua de terra, em minha cidade natal.
Três Corações-MG, ironia... terra do Rei Pelé.
Nos fins de semana saia de casa pela manhã.
Só voltava à noite, não sentia fome, sede, nada...
Só queria saber da redonda.
Todos tinham entre 10 a 13 anos.
Tal idade é a fronteira entre a infância e a adolescência.
As garotas, embora já atraentes, ainda não tinham condição.
Condição de disputar com uma bola....
Hoje um garoto com 12 anos ainda solta pipa.
Uma garota com 12 anos, já tem sensualidade, aparenta 17.
E assim elas ainda vão dominar o mundo... mas isso é assunto para outra crônica.
Uma bola é a preferência de 11 em cada 10 garotos nesta idade.
Bastava encontrar um ou outro amigo.
Íamos nas casas dos demais para “convocá-los”.
Par ou ímpar... os dois melhores escolhem os parceiros.
Quem era bom, logo era escolhido.
Sem falsa modéstia, eu era “disputado”.
Não era o primeiro a ser escolhido, mas era o segundo.
E a bola rola...
Na maioria das vezes, ficávamos descalços sobre a terra.
Quantas unhas eu quebrei, ficava todo ralado.
Mas que delícia de futebol.
A rua era levemente inclinada, uma leve subida.
Mas a paixão era tamanha, que ninguém se incomodava.
Certo dia chegou Leandro, morava há alguns quarteirões de “nossa rua”.
Leandro raramente aparecia.
Não era “dos nossos”.
Tinha a turma dele, mas nem lá ele era suportado.
O moleque era chato demais.
Três anos mais velho era maior que todos, bem maior.
Era alto, forte, chato, metido, falador e brigão.
Além disso tinha mania de ficar cuspindo no chão a cada 30 segundos.
No jogo trombava com todos. Entrava forte nas divididas.
No "jogo de corpo" ninguém podia com ele.
Hoje com 41 anos, Leandro é Advogado, mas isso também conto em outra crônica...
O jogo estava quente, Leandro no time adversário.
A rua empoeirada, alguns buracos.
Era difícil, a bola ficava muito arisca.
Mas houve um lance capital.
Meu time atacava.
A bola vinha em minha direção.
Rolando... sem quicar... no “ponto” para “encher o pé”.
Não tive dúvida, foi instintivo, um reflexo.
- Me chuta, me chuta... gritava a bola.
Disparei aquela “bomba”.
Mas (MAS!!!), Leandro estava na minha frente...
Um barulho seco, meio abafado.
Bola no nariz...!!!!!!!!!!!!!
(Silêncio).
O tempo parou.
O Sangue era farto.
Escorria velozmente e vermelho vivo sobre sua barriga, pernas e pés.
Até atingir a poeira do chão, alaranjada.
Todos se assustaram!
Não sabia o que fazer. Todos me olhavam.
Afinal eu fui o autor da “pancada no nariz de Leandro”.
Mas Leandro com sua maior idade e porte físico se revelou.
Chorava copiosamente, parecia um bebê faminto.
Um vizinho acudiu, enfiou dois pedaços de pano em cada narina.
O pano ficou empapado, mas resolveu.
Num reflexo de auto-defesa, larguei tudo e corri para casa.
Lá fiquei, aterrorizado (palavra bem adequada).
Tomei banho, mas não consegui comer nada.
Não comentei nada com meus pais.
A noite não conseguia relaxar, mesmo cansado, continuei tenso.
Como eu iria para a escola no outro dia...!??
Sabia da fama de brigão de Leandro.
Com certeza haveria o troco... ou “a volta”.......
A noite foi terrível. Tive pesadelos com Leandro e seu nariz sangrando.
Ele não iria deixar a bolada “de graça”.
Pensei em simular uma doença e não ir à aula.
Amanheceu, tinha de me arrumar e ir para a escola.
Depois do beijo de minha mãe, dei um tchau sem graça.
E fui à guerra. No caminho, minha caminhada era lenta. Bem devagar.
Por mais devagar que caminhasse, cada passo era um passo mais perto da escola.
Mas não tinha jeito, não poderia fugir do destino.
Tinha de encarar aquela situação.
Último quarteirão, última esquina. Avistei a entrada do colégio.
Um amigo disse que Leandro já estava na sala.
Começam as aulas, tudo normal.
Segunda-Feira era dia de educação física.
Mas houve uma surpresa geral.
Naquele dia a educação física seria diferente.
Era véspera de aniversário da escola, 45 anos.
Todos estavam excitados.
Ao invés de corridas e ficar saltando como idiotas, iríamos para a quadra.
Quadra era sinônimo de futebol. Futebol era alegria.
E ainda seria na quadra “principal”, sim, com aspas e tudo.
Um LUXO!! Seriam disputas partidas de futebol de salão.
Cada partida teria 15 minutos. A molecada estava em polvorosa.
Os jogos já iriam começar. Meu jogo seria o terceiro.
Aguardávamos todos sentados na arquibancada.
O piso da quadra brilhava, recém pintado e encerado.
Os gols, cada um com uma linda rede branca.
Traves e travessões brancos, perfeitamente brancos.
Cobertura de zinco, havia sombra.
O professor distribuía camisas (não havia jalecos).
Haveria até juiz apitando... Uau...!!
Outro LUXO, nunca havia jogado sob o comando de um juiz.
Para um time, camisa vermelha, para o outro, azul.
Bola de couro, oficial, tudo perfeito.
Para quem só jogava no terrão perto de casa, era um sonho.
Era como que cada um de nós fosse jogar uma copa do mundo.
Por aqueles minutos, esqueci de minha terrível situação.
Tinha até me esquecido de Leandro e seu nariz.
E do “risco” eminente que meu nariz corria.
Todos encantados, hipnotizados com o clima envolvente.
E de repente, voltei à vida real. Estava olhando para a parte de cima da arquibancada.
Lá estava Leandro. Cruzei olhares com meu carrasco.
Meu sangue gelou. Curiosamente ele estava há poucos metros de distância.
Na mesma arquibancada, com “sua turma”. Pareciam Gigantes.
Meu senso de defesa ou sobrevivência sequer havia notado.
Não consegui manter o olhar com Leandro.
Como sempre, o cara pareceu frio, assustador.
Minhas pernas, antes animadas e em aquecimento, ficaram bambas.
Começava a suar frio. A festa perdeu a graça.
Todo o terror da noite anterior voltou à minha mente.
Acaba o segundo jogo.
O professor grita, chama a próxima turma.
Aponta para onde eu estava e também a turma de Leandro.
Caminhamos em fila indiana até à entrada da quadra, cerca de 10 garotos.
Me sentia um boi num abatedouro, já no corredor de abate.
Pensava com meus botões: É hoje, não tenho como escapar...
Queria ter um capacete para proteger meu nariz.
Já na quadra, uma ironia... o professor diz que vai dividir os times.
E pede “esportiva” a todos. Será que Leandro ouviu isso? Me perguntava.
Mas então, ocorre o imprevisível, o inacreditável.
Sinto uma mão de algum Deus do Futebol.
Aqueles que atuam em cada final de copa do mundo.
Incrível. O professor me joga uma camiseta vermelha.
Fui o primeiro a recebê-la.
Ainda haviam 9 garotos, 9 camisetas, 5 azuis e 4 vermelhas.
Não percebia, mas era uma espécie de loteria.
O segundo a ser apontado pelo dedo do professor (ou de um Deus) foi Leandro.
E então, outra camisa vermelha foi entregue. SIM, jogaria no mesmo time de meu carrasco..!!!
Fiquei confuso, não sabia o que pensar. Meu pânico agora era pura perplexidade.
Lá estavam eu e Leandro, do mesmo lado da quadra.
Ele não me dirigiu a atenção depois que cruzamos olhares na arquibancada.
Eu, pelo contrário, não tirava os olhos dele.
Posicionados na quadra, eu fiquei mais a frente. Ele jogava mais atrás.
Começa o jogo.
Mesmo com as pernas bambas, me segurei.
Não sabia se marcava os adversários ou se ficava atento ao meu carrasco.
O time adversário era bem melhor. Eles no ataque o tempo todo.
Nos restava apenas segurar o jogo. Nosso goleiro era o melhor em quadra.
Mal conseguíamos passar pelo meio da quadra.
Massacre total.
E assim foi quase o jogo inteiro.
0x0, mas já era para estar 5x0, 6x0... O tempo todo, vigiava Leandro.
Já começava a temer pelo fim do jogo. Será que depois ele iria acertar as contas comigo?
Comecei a torcer para o jogo não acabar. Mas estávamos no último minuto.
0x0 persistente, nosso goleiro iria virar santo. Nossas traves eram abençoadas.
A próxima turma, já se caminhava em fila indiana para a entrada da quadra.
E então, mais uma vez, senti uma mão dos deuses do futebol.
Acho que estavam na arquibancada, torcendo por mim.
Senti uma brisa fresca, animadora.
Nosso adversário falha na traça de passes, a bola sobra para Leandro.
Numa fração de segundo, senti um empurrão, disparei uma corrida rumo ao gol adversário.
Meu calcanhar batia na minha bunda. Acho que fiz 20 metros num piscar de olhos.
Leandro ainda estava com a bola... Ainda faltavam alguns segundos.
O professor já olhava para o relógio.
Enchi meus pulmões e gritei com toda força: LEANDROOO...!!!
Sim, clamei por meu carrasco...!!! Pela segunda vez ele me viu naquele estranho dia.
Pela segunda vez senti seu olhar, mas naquele segundo, não tive medo.
Leandro, de bico, me lança a bola. Eu estava de costas para o gol.
Imaginem um lance em câmera lenta.
Assim via a bola atravessando toda a quadra, veloz, rente ao chão.
Passando por todos os adversários, em minha direção.
Senti que o goleiro saia do gol, pois eu estava desmarcado.
A solução para o goleiro seria partir para cima de mim.
A bola há poucos metros, presenti uma tesoura do goleiro em meus calcanhares.
Mas novamente numa fração de segundos, fui “iluminado”.
A bola chegou aos meus pés, obediente.
Pisei nela, em seguida rolei a mesma para o lado, tirando meu corpo.
O goleiro passou batido.
Com o giro de meu corpo, fiquei de frente para o gol.
A bola e o gol vazio na minha frente...
0x0, no penúltimo segundo. 1x0 no último segundo.
Acaba o jogo, vencemos. Todos vibram.
Viro novamente em direção ao centro da quadra e vejo Leandro correndo.
Embalado em minha direção, como um tanque de guerra.
Ele me pega pela cintura e me levanta, me dá um abraço e vibra.
O que faz a vida tão especial é o fato de que ela nunca se repetirá.
Quase 30 anos depois, Leandro é padrinho de meu sobrinho.
Todo final de ano assamos uma picanha.
Mas uma sensação estranha me persegue.
Ainda acho que ele vai acertar uma bela direita no meu nariz.
Em psicologia, isso se chama trauma.
Autor: Pedro Luz - Osasco/SP







3 Comentários:
Se vocês gostarem vou sempre postar uma crônica do Pedro Luz. Pra mim todas as crônicas dele são ótimas!
nem de ler eu gosto auhauhauhaa
Nem li e nem lerei !!!!!!!!!!
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